Casamento em Las Vegas e amor sólido

Por Bell Kranz

Uma ida ao cabeleireiro no sábado rendeu encontros expressos e simultâneos com duas jovens que vivem momentos amorosos distintos. Mas os dois casos fazem lembrar o famoso conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a existência fluida do homem moderno, a sociedade líquida, o amor líquido e, a estes, acrescento a separação líquida.

A moça sentada de frente para o espelho, enquanto as madeixas escuras eram repicadas, com fios salpicando para todo lado, falava em alto e excitado som: “Coloca essa nota no seu blog, acabo de me casar em Las Vegas! Casamos lá para experimentar. Se der certo, validamos no Brasil. Se não der, posso casar depois aqui”. É tendência.

Ao mesmo tempo, a mais jovem ao lado, de 26 anos e com os olhos lacrimejando, conta emocionada que se separou. O noivo era seu melhor amigo, o pai dela patrocinou uma festa de princesa, mas o casamento naufragou depois de três anos. Ela estava mortificada. E a noiva de Las Vegas, que parecia não perceber a emoção alheia, atravessa a conversa para anunciar que vai estrear um blog de style!

Segundo a garota, todas as amigas da sua idade querem casar cedo e muitas já estão na etapa separação. Para explicar essa tendência, ela cita o baixo grau de tolerância geral dos casais.

Parece que o que permite casar hoje é a separação – ou o casamento realizado fora do país (sic!). O fato é que relacionamentos fluidos e separações idem alienam e fazem sofrer.

Um ex-marido escreve hoje para o “Casar, descasar recasar”. Ele advoga em nome do amor sólido, que cria memória, transforma e se mantém respeitado quando a relação acaba. Para isso, haja trabalho e algumas virtudes.

(Ilustração: Marcelo Cipis)
(Ilustração: Marcelo Cipis)

Attraversare

Por Itibere Muarrek

Os italianos têm um termo que usam para um relacionamento amoroso que acho perfeito: attraversare. Atravessar a vida, ter uma companheira para realizar a travessia da vida. Para completar a ideia, acrescento uma frase do poeta Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Não há nada mais impreciso que a própria vida e atrelar nossa felicidade com a de outra pessoa torna a vida insana. Insano porque somar duas inconstâncias que se prometem amor eterno não é nada razoável.

Mas navegar é preciso, acreditar que vale a pena é preciso, saber o quanto a vida lhe é generosa ao lhe dar um amor para viver sublimemente é preciso. É nossa absolvição do cotidiano e o único meio de conquistarmos estados de felicidade. E aí, recheio este texto com mais uma citação, bem ao gosto de autoajuda em pílulas de 140 caracteres: “Um navio no porto é seguro, mas não é para isso que os navios foram feitos”, pensamento de William Shedd [teólogo norte-americano; 1820-1894].

Queremos a segurança em um relacionamento amoroso, podemos com precisão traçar rotas e objetivos para atravessar a vida com a companheira, mas viver é impreciso. Paradoxo do nosso tempo: ficar no porto nos torna obsoletos, seguir adiante, desbravando a vida, nos torna vulneráveis.

Fato do nosso momento civilizatório, parece que nada é eterno: relacionamentos ficam obsoletos, a renovação e a inovação têm que ser constantes. Mas essa é a natureza para APPs, não para “sistemas operacionais” do tipo humanos, que exigem conhecimento acumulado, estrutura e muita dedicação para se desenvolverem e se manterem.

A vida só se faz sentida quando nossas experiências e gostos se põem à prova, se aprofundam e ficam na memória. E isso se dá com repetição, reiteração, aprofundamento, com erros calculados (ou pensados, ao menos). Essa forma de viver cria um elo inquebrável com filhos, família, amigos, mas não garante a permanência física da companheira. A companheira vem e pode desaparecer por química para alguns ou alquimia para outros.

A companheira é um “ente” que nos retira do individualismo e potencializa nós mesmos e todo nosso entorno, coloco no ápice seu valor para a vida de um homem. É a pessoa que está ao seu lado e em você, simultaneamente. Ela se faz presente em como pensamos a realidade e construímos o futuro. E aí que a porca torce o rabo: quando o relacionamento acaba, se esvazia o futuro, o presente degringola, o cinza passa a ser o tom padrão do cotidiano – você até pode conseguir viver em 50 tons de cinzas por um tempo, mas o colorido da vida não terá.

O fim de um relacionamento, de uma hora para a outra, transforma tudo à nossa volta. Reorganizar vida com filho, pagar mais contas, refazer desejos de consumo e relação com amigos, perder a convivência com a outra família, ter novos objetivos sociais, maior dosagem alcoólica e sexo for fun… Enfim, livre. Toda a liberdade do mundo para ir aonde quiser. Mas ir para onde? Ir com quem? Com que bagagem?

Todo relacionamento acrescenta experiências que nos transformam e, portanto, não acabam pela sua ausência. A memória triunfa. Paradoxalmente, aceitar essa impermanência (mesmo não desejável) é o primeiro passo para criarmos condições para uma vida leve e aberta e tentarmos (quem sabe) um relacionamento estável como se fosse o último da série.

Em minha vida, entre tantos valores que aprendi de meus pais, familiares, amigos e que procuro cultivá-los – a grande custo, sim, pois está nada fácil suportar a violência nestes tempos de cólera, consumismo, sexo como commodities ou APPs e coletivos idealistas a cerca da vida alheia –, quatro virtudes foram relevantes em minha experiência de construção e reconstrução da minha vida amorosa. São elas: generosidade, resiliência, autoconfiança e humor.

GENEROSIDADE É o trunfo maior dessas virtudes, pois nela reside saber valorizar a companheira sem juízo de valores ou preconceitos, proporciona que o relacionamento se inicie sem a máscara da perfeição, do sonho, da ilusão. Reconhecer nossas imperfeições e fraquezas é o primeiro passo para que um relacionamento possa crescer com honestidade e cioso de podermos melhorar e aceitar a parceira e a nós mesmos. E, se em algum relacionamento filhos forem gerados, é a generosidade que projeta nos filhos uma perspectiva de que valeu a pena se relacionar, podemos ver neles as virtudes do casal. Isso também se expande aos familiares da relação que acabou, que estarão à distância para o resto de nossas vidas. Mas também são nossos, remotamente, a partir de nosso filho, pelos seus 50% de sangue e memórias.

RESILIÊNCIA Se a generosidade evita que o casal destrua completamente a embarcação por brigas, ranços, desconfianças, ela não evita que a embarcação seja desmontada e dividida ao meio. Daí entra a resiliência, que é nossa capacidade de resistir à derrocada, de consertar os estragos, arrumar as velas, estancar furos na canoa, retirar a água que afundava a embarcação e encontrar um novo rumo para sua história. A resiliência permite a reconstrução de nós mesmos e do nosso meio ambiente e social. Esta condição está ligada intimamente com a generosidade, pois sem a compreensão de que erros acontecem, que somos falíveis, que a vida está sujeita a altos e baixos sendo testados por novidades o tempo todo, não seguramos o rojão que são os últimos meses de um relacionamento. Sempre rojão. A perda é dos dois, de quem ainda ama e daquele que já não sabe o que faz naquele barco.

AUTOCONFIANÇA Consegue ser generoso com o mundo que o rodeia, nem que seja apenas pelo filho ou para seu sossego? Aguenta as pancadas e quedas da vida? Então, é bom que sua autoconfiança esteja em dia. Sem ela, ficamos desnorteados e sem rumo. Qualquer novo embate e oportunidade de relacionamento se tornam uma luta inglória, se não acreditamos que podemos sempre fazer mais e melhor, reconstruir a vida e num patamar melhor. Só com autoconfiança conseguimos remontar o barco e acolher a nova companheira para continuar a travessia, atento e seguro de que, desta vez, tentará não acumular furos, evitando os icebergs pelo caminho.

Casar, separar, recasar, parece sempre difícil e trabalhoso. E é!

HUMOR É o que inicia e finaliza bem um relacionamento ou vários relacionamentos, é o que nos faz aceitar com alto astral nossas próprias imperfeições e as imprecisões de viver. É o humor que nos humaniza e nos coloca lado a lado com todos de nosso entorno. O humor combate o rancor, a angústia, traz resultados próximos de um momento sublime de felicidade, ao que nos reduz em importância e nos eleva ao som do riso.

Casar, separar, recasar, separar, recasar… Pouco importa o quanto isso se faça contínuo, quantas vezes tenhamos que remontar a embarcação, refazer rumos. O fundamental é que na travessia da vida a gente construa uma memória que funda o passado, o presente e o futuro, que honre a família, que se perpetue nos descendentes e que tenhamos na companheira escolhida a testemunha e confidente íntima dos desejos que temos e vontades que efetivamos.

Itibere Muarrek, 46, casado, descasado e, hoje, marinado, é mestre em economia pela PUC-SP e trabalha com comunicação e marketing